Massacre na escola do Realengo. “E agora, José??”


Boa noite !!  Bom dia!!  Boa tarde!!

Em função das minhas novas atividades neste ano, tinha deixado os meus posts aqui do blog um pouco de lado, mas diante do acontecido essa semana na escola do Rio de Janeiro, e eu, na função de Educadora há 19  anos, não pude deixar de registrar aqui meus apontamentos.

Aliás, não só meus, este post tem a colaboração da professora Déborah Demenech, que é pedagoga e trabalha com a Educação Especial . O motivo de estarmos compartilhando este texto  é simples. Nós temos a mesma opinião sobre essa questão e após termos trabalhado há 5 anos juntas no colégio, eu como professora das 5ªs séries e da Sala de Apoio a Aprendizagem, e ela, como professora da Sala de Recursos ( veja o blog www.saladerecursoscostaesilva.wordpress.com), chegamos a algumas conclusões, que explanamos a seguir.

Acreditamos  que todos estão em luto pessoal pelo  massacre no ambiente educacional nesta quinta-feira (7 de abril), dado que o fruto do nosso trabalho (educadoras), se dá nas relações com crianças e adolescentes.

Desejamos  que este momento não passe por pura sensação de perplexidade e tristeza mas, que provoque uma profunda reflexão quanto ao nosso contexto educacional bem como das relações com outros segmentos da sociedade. (Infelizmente, não é o que acompanhamos nos  noticiários e conversas informais..)

Em uma visão holística do processo mutlidisciplinar, deveríamos considerar a   história de vida e  aprendermos a avaliar as respostas educativas de nossos alunos,  fazer uma análise das  suas relações interpessoais, de seu desenvolvimento socioafetivo, emocional e congitivo na oportunização do acesso ao conhecimento científico.

Neste sentido gostaríamos  de compartilhar “bastidores” do ambiente escolar, que ingenuamente acreditamos que já seja de conhecimento de todos.

No trabalho de investigação para identificação de necessidades educacionais especiais nos aproximamos das dificuldades dos alunos de forma que nos forçamos a engolir, com dor na região da garganta, histórias de vida e acesso aos sentimentos em nossos alunos que não desejaríamos a qualquer ser vivo.

Por muitas e muitas vezes foi em nosso ambiente escolar  pais e alunos se sentiram à vontade –  pois, adquiriram segurança, encontraram apoio e conforto – e pela primeira vez expuseram  sobre situações vividas:

– Abuso sexual no ambiente familiar, educacional e no bairro;

– Discrimação por parte de colegas, desde o início da vida escolar;

– Discriminação e preconceito por parte da família dadas as dificuldades de aprendizagem;

– Discriminação e preconceito por parte dos profissionais que deveriam apoiá-los, os educacadores;

– Violência familiar, e não se trata de uma palmada;

– Violência na escola vinda de professores, e aí uma palmada já é inconcebível;

– Violência simbólica;

– Alunos que, da família não podem esperar mais do que a própria concepção e da escola já não sabem o que esperar.

– Uso de drogas;

– Uso de drogas na família;

– Tráfico de drogas  no ambiente familiar.

– Porte de Armas;

– Prática de furtos e envolvimento com facções em bairros da periferia.

Tanto que, de nossas ações surgem encaminhamentos para os mais diversos segmentos sociais, infelizmente sem sucesso, com pouco retorno, sem a devida atenção.

Seremos mais claras: Estamos recebendo alunos e alunas nas 5ªs séries que têm passado por  várias  dificuldades e /ou violências das citadas acima, e não somente nestas séries,  que ao fazermos uma  ”investigação” um pouco mais minunciosa, acabamos deparando-nos. (lembro que essa é a realidade de todas as escolas, em todos os estados)

Então procedemos encaminhamentos para os diversos  segmentos, lembramos, que estes, já passaram por outras escolas, inclusive, e infelizmente, em algumas,  foram vítimas destas violências e nada foi feito.

Tentamos de todas as formas buscar um auxílio, mas na maioria das vezes, sem sucesso. Ou quando se consegue, é tudo muito demorado, faltam profissionais para uma demanda cada dia maior.

Neste caso do massacre na escola do Realengo, ficou nítido e não precisa ser nenhum especialista no assunto, que o ”assassino” foi vítima de diversas formas de agressão, destas que destacamos anteriormente, demonstrou isso, em seu comportamento naquela mesma escola, onde foi, vítima de maus tratos  pelos colegas, e provavelmente foi assim que viveu todos os dias de sua vida até o dia 7 de abril, quando colocou em prática seu plano devidamente esquematizado e elaborado, ou seja, mostrou para todo mundo que ele era capaz, que tinha muito potencial, infelizmente para isso, matou inocentes, mas que naquele momento para ele, provavelmente, representavam aqueles colegas que quando estudou ali, praticavam agressões de todo tipo.

E o que foi feito? Quando ele sofria essas agressões, qual foi o papel da escola  ? Que orientação foi dada?  Que tipo de atendimento ele recebeu? As escolas estão recebendo algum tipo de orientação para lidarem com o bullyng??  Os professores estão preparados?

Onde estão as políticas públicas??  As escolas Municipais caminham de um jeito, as estaduais de outro.  Mas como, se o estudante sai da 4ª série (município) e vai para a escola do estado?? As ações não podem ser isoladas ou nem acontecerem, tudo deve estar interligado, um órgão que presta atendimento, deveria repassar para o outro, e assim sucessivamente. E que fique claro, não é isso que ocorre!

Existe falta de profissionais, existe má vontade….E então, o que fazer?

O discurso é o mesmo: ”As famílias estão desestruturadas…””.

Sim, mas e ai?? Qual é o papel do governo então?? Quanta gente está sendo paga, e bem paga, para encontrar soluções para os problemas??

Ele matou! Ele é um assassino!! Mas já não está mais entre nós!

Todos os noticiários, tentam desvendar os mistérios da mente do assassino! Para quê??  Ninguém falou em prevenção!  Querem armar as escolas..ficaremos presos! E mais uma vez não será resolvido nada!

Fiquei sabendo de um programa na Tv que falou da situação das escolas e da falta de políticas públicas…os outros….

Poderia escrever aqui até amanhã cedo, contaria experiências particulares, histórias de 19 anos em sala de aula…mas prefiro começar a agir!

Cobrar! Exigir que algo seja feito! Pensar em ações que possam de alguma forma  mudar essa situação!

Dessa forma, gostaríamos  de expressar a constatação prática de que hoje a escola é o “centro” da vida do aluno, substituindo enquanto sistema hierarquico a própria família.

Não que concordemos, mas, o fluxo vem sendo este. E nada mais eficaz dado que é o ambiente em que a criança e adolescente passam a maior parte do tempo. No entanto,  a escola sozinha não é a resposta, precisamos da atuação interdisciplinar, da presença, participação e intervenção de profissionais da saúde e assistência social.

Estamos convivendo diariamente com todos os tipos de problemas e os ” resultados” estão aparecendo, e podem acreditar, estão bem mais perto do que imaginamos.

É isso! Que tenhamos inspiração!

Que possamos refletir no mais profundo sentido dessa palavra!!

Encontrar o culpado ou o herói desta manhã fatídica no Rio não nos levará a nada!

Devemos é mudar a nossa postura em relação às coisas!

Uma semana produtiva para nós!

Fiquemos com Deus!

Super beijo,

Profªs. Márcia  Fontanella e Déborah Demenech

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Sobre marciafontanella

Sou professora de Língua Portuguesa na cidade de Cascavel- Paraná. Leciono a 19 anos.Sou Pós-Graduada em Língua, Literatura e Ensino.No ano de 2011 comecei uma nova etapa em minha vida profissional, fui convidada para trabalhar no NRE -Núcleo Regional da Educação no NAIPE - Núcleo de Ações Pedagógicas Integradas. Estou levando minhas ideias, meu conhecimento, minha criatividade e dinamicidade a todas as escolas. Um novo desafio! Sou mãe de duas meninas lindas!Adoro ler, ver filmes, seja em casa ou no cinema. Sou corredora. Ano passado me propus a correr a SÃO SILVESTRE, e assim o fiz em dez. passado. Amo a vida e tudo o que ela tem, sejam coisas boas ou não. Acredito que estamos aqui na Terra para evoluirmos, tento ser cada dia melhor!

Publicado em 11/04/2011, em educação e marcado como , , , . Adicione o link aos favoritos. Deixe um comentário.

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