Recomeçar do zero.

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Bom dia! Boa tarde! Boa noite!

Essa postagem foi escrita aqui no blog, há alguns anos, para ser mais exata em dezembro de 2009. Um período que foi determinante para a minha vida e alguns recomeços que tive!

Mas ultimamente tenho falado sobre esse tema “Recomeçar”, e sempre me referia a essa postagem, então resolvi trazê-la aqui novamente, até porque, estamos recomeçando todos os dias, não é mesmo?!

Geralmente no final do ano, fazemos (ou a maioria das pessoas fazem) aquela retrospectiva  e isso me parece inevitável,  é a  hora que  paramos e  fazemos  uma análise, uma reflexão de tudo o que passou, de tudo o que fizemos ou deixamos de fazer, do que foi bom ou ruim, se ganhamos ou perdemos…

Muitas coisas importantes aconteceram neste ano no ano de 2016, para mim.  Coisas  que fizeram a diferença na minha vida diretamente e indiretamente.Coisas boas e talvez nem tão boas.

Mas o que são as coisas “boas ou não”? Se são boas ou ruins, depende muito de quem as vê, em que momento as vê, com que interesse, com os olhos da emoção ou da razão.

Tenho certeza que se formos fazer uma análise, você e eu, já passamos por situações muito desagradáveis ou quem sabe até momentos que dissemos:

“Agora, tenho que recomeçar, Recomeçar do ZERO!”

Vamos pensar um pouco sobre esta expressão, que se não a pronunciamos, com certeza já ouvimos alguém exclamando-a.

O que captamos desta expressão quando a ouvimos ou pronunciamos é perfeitamente acessível, evidente.Mas também tem um significado global.

Vejamos :

A palavra RECOMEÇAR sozinha, não teria toda a força que assume aqui se nao estivesse associada a “zero”. O uso do número já confere a expressão um caráter radical, tão nítido, preciso e implacável quanto a fria verdade do cálculo matemático.

Acontece que ZERO não é um número qualquer!

Ele é ao mesmo tempo a genial expressão do “neutro”, do “vazio” que possibilita a fabulosa capacidade operatória que se conhece em aritmética, mas é também a ideia negativa do “nada”, do ” nulo”.

Contudo, sendo ao mesmo tempo não-positivo e não-negativo, e estando mais exatamente entre os dois, o “zero” não é MAIS  nem MENOS, nem +1 nem -1. Mas em termos de existência humana, como entender esta expressão?

Vejamos o lado MAIS:

Recomeçar do zero não é por acaso considerar que tudo o que existia “a mais” deixou de existir??

Pode-se pensar em tudo o que  foi adquirido aos poucos ao longo de uma existência, mesmo que curta, tanto em nível de posse (objetos pessoais, móveis, livros, casa, etc..) quanto em  termos daquilo que somos (voz, memória, inteligência, domínio de um instrumento, segurança) e da vida social e afetiva (família, amigos..).

Portanto, tudo o que estava constituído, construído, esta destruído, anulado! Volta-se ao ZERO!

E o Lado do MENOS:

O que havia “a menos” também desaparece: o que isso quer dizer?

“A menos” pode significar o que devemos, dívidas materiais, morais ou intelectuais. Não posso viver normalmente enquanto não  “alcançar” esse simples nível ZERO. Se em face das aquisições positivas “zero” pode parecer uma catástrofe, nas aquisições negativas “zero” é uma verdadeira redenção: Solucionadas as dívidas (e as dúvidas quanto a minha pessoa), nada mais me barra o caminho.

Podemos perceber a ambivalência (duplo sentido)  segundo o qual poderá ser interpretada a expressão “Recomeçar do zero”.

Estando o ZERO situado entre o “mais” e o “menos”, tudo depende do que se perde! Mas, de qualquer modo se perde algo! Ora, mas em relação a quê?

Se meu “zero” designar minha atividade profissional, direi, “recomeçar do zero” caso minha profissão tenha deixado de existir, obrigando-me a aprender outra.

Indo um pouco mais além, se minha referência que funciona como zero, for constituída por minha infância (sendo minha vida adulta como uma aquisição) dizer que recomeço do  ZERO, é dizer que aos 40 anos estou como se saísse da casa dos pais, sem trabalho, sem família por mim fundada, sem teto que seja meu. Em suma, “como se” a minha vida não tivesse existido!

Por mais negativo que o ZERO possa parecer, não devemos esquecer o ponto de equilíbrio e de referência que ele constituí e, por outro lado, a disponibilidade, o grau de ação que, na qualidade de “vazio” ele possibilita.

Analisando um pouco o verbo que constitui esta expressão: RECOMEÇAR- vem de não ficar parado, é ativar, reativar. Conotação dinâmica, o prefixo RE, indica que o que se faz é feito de novo. A expressão inteira, porem, não parece dar ideia de hábito repetitivo, mas sim de RENOVAÇÃO, começar outra vez com o que há de DIFERENTE.

Se começar é deixar um estado de inércia, “recomeçar do zero” é ainda mais complexo. Algo que já foi começado uma vez, já foi construído e adquirido, para no fim, depois de estar tudo perdido e cancelado, chegar-se ao mesmo ponto de partida….que deverá de novo servir de largada.

Essa “formulação” digamos, um pouco trabalhada, permite trazer à tona, no sentido da expressão, a ideia de movimento, espécie de ida e volta entre perda, destruição, anulação ou desaparecimento, por um lado, e construção, processo de aquisição, iniciativa e invenção, por outro, ideia de deixar vestígios da nossa existência.

Essas significações até profundas de uma frase tão comum, permite-nos ler nas entrelinhas uma proposta de vida!

Podemos dizer que esta expressão quer dar conta de uma concepção em que a existência humana é vista como um terreno demarcado, não seria por acaso que também se diz: “Voltar a estaca Zero”.

Mas trata-se de um terreno  sobre a qual foi construída alguma coisa, terreno semeado com nossas realizações, que de repente foi devastado, mas um terreno que parece possível voltar e demarcar.

Assim, temos uma concepção de vida. O que vamos adquirindo, desenvolvendo e edificando parece ser comparado ao caminhamento de um topógrafo que vai demarcando uma estrada, mas que de repente erra e precisa voltar para, a  partir do zero, traçar outros rumos, outra direção.

Este “ensaio filosófico”  que me propus  escrever hoje é resultado de leituras que tenho feito no livro “Exercícios Filosóficos” de Madeleine Arondel-Rohaut, da Editora Martins Fontes.

Esta análise é uma resenha de um capítulo  deste livro. Mas porque escolhi este capítulo?

Por que como disse  anteriormente, se não falamos esta expressão, o que é bem pouco provável, já ouvimos…

E nesta época do ano, o que desejo a você, a mim, é que tenhamos este equilibrio  do “Zero”, que saibamos que podemos Recomeçar sim! E que todo recomeço, indica um acúmulo de experiências, de saberes adquiridos que nos possibilitam a escolha de um outro caminho, de uma outra direção!

E se errarmos novamente?? E daí? Voltamos a estaca zero??Vamos RECOMEÇAR!!

Parece-me  que esta aí exatamente a extraordinária liberdade do ser humano!

Agradeço imensamente as pessoas que fizeram parte da minha vida de alguma forma neste ano!

Umas mais perto, outras, nem tanto!

Mas o que é a distância?? Hummm…acho melhor deixarmos este questionamento para outra hora!

Fique bem.

Ótima semana para você!

Fique com DEUS!

Super beijo,

Márcia